Uma em cada 12 pessoas no mundo pode ter hepatite B ou C, sem saber. Não há sintomas e o vírus não é detectado em exames de rotina. Tem certeza que você não tem? Faça o exame, é gratuito.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Hepatite C e anticoncepcionais

No dia-a-dia, não sinto que tenho hepatite. Então, de modo geral, ela não me incomoda.
Claro que tomo alguns cuidados, mas eles estão tão incorporados ao meu cotidiano que nem percebo.


No entanto se tem uma coisa que me incomoda muito é não poder tomar mais pílula anticoncepcional.
Pra quem não sabe (e eu não sabia), anticoncepcionais hormonais - orais, injetáveis, adesivos, Myrena - são contra-indicados para quem tem "doença grave no fígado".

Eu poderia dar uma de "joão-sem-braço" e pensar como a Sociedade Brasileira de Hepatologia, que não considera a hepatite C por si só uma "hepatologia grave". Para a SBH, a hepatologia se torna "grave" apenas quando a pessoa atinge um tal índice (MELD 15) que, na prática, significa que teria mais uns dois ou três anos de vida sem transplante. Veja mais informações sobre isso. Felizmente, não é o meu caso.

Eu poderia também lembrar que no resultado de minha última biópsia está escrito "hepatopatia moderada", e não "grave".

Poderia fingir que esqueci que meu infectologista disse que eu não poderia tomar, e me apegar ao ginecologista que disse não ter problema.

Mas o fato é que não posso arriscar quando minha saúde está em jogo.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o risco desses medicamentos para portadoras de "hepatites virais em atividade" é de categoria 4, ou seja, o método não deve ser usado, por apresentar um risco inaceitável. Fonte: Site Anticoncepção On-line

Ok. Como sou uma pessoa resignada, aceito isso.
O que não quer dizer que não me incomode (e muito). Explico porquê:

1. Eu odeio menstruar.
Concordo com a tese de que a menstruação é uma sangria inútil.
É desconfortável, incômodo, anti-higiênico, fede e, em meu caso, ainda me deixa muito nervosa ver todo aquele sangue cheio de vírus em absorventes e papéis higiênicos indo para um lixão onde pessoas poderão ter contato.

Achou nojento eu ter dito isso??? Pois é, eu também acho!
Antes eu tomava anticoncepcional direto, sem menstruar.



Atualização em 30/01/2010: Como fui me esquecer do inchaço e das cólicas??? E, às vezes, há ainda a pressão baixa e todos os seus sintomas parecidos com os do Interferon.


2. Ninguém merece tensão pré-menstrual (TPM).
Hoje eu estou tão insuportavelmente irritada que meu marido disse que é um risco sairmos de casa (não achei graça). Estou depressiva, querendo que todos esqueçam que eu existo, inclusive minha filhotinha, que é um amor, mas me exige DEMAIS.

3. Minha pele.
É batata: uma semana depois de menstruar, explodem no meu rosto espinhas pustulentas, doloridas e, pior de tudo, horrorosas.

4. E, finalmente, qual é o objetivo mesmo de um anticoncepcional?
Eu não devo engravidar. Não quero passar de novo por tudo aquilo da primeira gravidez. Haveria risco para o bebê e para o meu fígado.

Se o Myrena não pode usar, o DIU normal também não, porque pode baixar as plaquetas e inviabilizar o tratamento da hepatite.

Bom, o jeito é usar camisinha e aguentar o esfolado e a coceira dos próximos dias. Além disso, meu marido não consegue esconder seu desgosto. Teve um dia que ele disse "ah, então prefiro nem fazer nada".

Pausa para um momento de lucidez em meio à TPM:
Muitos médicos, inclusive o meu, aconselham que os portadores de hepatite C usem sempre camisinha nas relações sexuais. Segundo Carlos Varaldo, do
Grupo Otimismo, "apesar de não estar comprovada a transmissão sexual, ela é possível caso ocorra uma pequena ferida durante o ato."
Mas, independente da hepatite, convenhamos que a camisinha devia ser usada por todos, sempre. As informações estão por todo lado.


Pronto, agora posso voltar a reclamar...

Ultimamente ando muito a fim de adotar pro resto da minha vida aquele famoso método da aspirina como anticoncepcional: colocar um comprimido de aspirina entre os joelhos e apertar firme, sem deixá-la cair.

A pergunta que não quer calar:
Será que quando eu estiver curada (se Deus quiser, um dia isso vai acontecer), eu poderei voltar a usar pílula?

Acredito que vai depender do comprometimento que meu fígado apresentar na época, mas será que há outros fatores envolvidos???



ATUALIZAÇÃO EM 26/05/2010
Precisei voltar a este post, para algumas considerações sobre o que eu havia dito sobre anticoncepcionais fazerem muito bem pra mim. Como farei a viagem dos meus sonhos no mês que vem, resolvi tomar duas cartelas de anticoncepcional para "aqueles dias" não coincidirem com a viagem (desculpe, querido fígado). Optei por tomar o meu de costume, que foi receitado pelo meu ginecologista há tempos atrás. 
Qual não foi minha surpresa quando comecei a ter várias coisinhas que, antigamente, eu achava que eram normais mas, agora, associo ao uso da pílula: meus cabelos caindo muito (sempre havia sido assim), enjôos matutinos praticamente diários, um pouco de gases. Eu nem havia reparado que nunca mais sentira essas coisas "normais" depois que parei com o remédio. Portanto, retiro o que disse sobre o anticoncepcional "só me fazer bem". Pronto, agora me sinto menos chateada por dever evitá-lo (rs).

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Hepatite C, preconceito e A Feiticeira



Tenho falado muito sobre preconceito. Mas não tem jeito, ele está em toda parte.

Está na fala do renomado jornalista, no meu time do coração, no entretenimento do povo, no discurso de meus primos adolescentes sobre negros e homossexuais (#triste).
Ele aparece pomposo na boca de quem rotula nosso Presidente da República como ignorante, como fez Caetano, e por aí vai.

Como já disse em outra ocasião, o preconceito está dentro de cada um de nós, em diferentes níveis, de diferentes formas, por diferentes coisas.
Que atire a primeira pedra quem nunca teve um.

Esse é um assunto recorrente nos comentários que os leitores fazem aqui no blog. Ninguém quer ser rotulado ou tratado de forma diferente. Medo de sofrer preconceito é algo natural.

Ao fazer o tratamento da hepatite C, muitos preferem que as pessoas pensem que é câncer, porque ao invés de preconceito, desperta compaixão.

Minha reflexão sobre o tema ganhou forças com a recente incorporação do Programa Nacional de Hepatites Virais ao Departamento de DST e Aids do Ministério da Saúde - agora, Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.

A primeira coisa que me passou pela cabeça quando li a notícia foi: "Nããããããããããão!!!"
Assumo, preconceito puro.

Resumo do pensamento:

Pra que misturar hepatite C com DST e Aids?
Em primeiro lugar, hepatite C não é uma doença sexualmente transmissível. Ponto. (O fato de eu ser tão enfática não desvelaria um preconceito contra DSTs???)

Mas o principal: no Brasil, de forma geral, as pessoas associam a hepatite C com a "inocente" hepatite A e não com o "temível" e "mal visto" HIV. Acredito que o preconceito seja minimizado por causa disso.

Por exemplo, num filme brasileiro não teríamos a seguinte piadinha infame de A Feiticeira, o Filme - The Bewitched (2005).

Explicando o contexto:
A bruxa enfeitiça as mulheres-alvo do velho-bruxo-babão, fazendo com que elas falem verdades para que ele se desinteresse delas.
A primeira "vítima" começa a tagarelar que na manhã seguinte não teria entendido 90% das piadas do corôa e falaria sem parar do sonho de abrir uma academia blá blá blá.
Com a segunda, o desinteresse é mais fácil e imediato: ela só abre a boca e diz que tem hepatite C.

Veja a cena:

video


Mas voltando ao Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais...

- Como ser humano provido de razão, aproveito a oportunidade para refletir sobre meus preconceitos e desconstruí-los.

- Como incansável otimista, prefiro olhar o lado bom da coisa: como serão as campanhas de hepatite agora com a experiência e competência - incontestáveis - das campanhas de Aids? Não temos muito a ganhar?

- Como educadora crítica, percebo também que, até agora, parece que a única coisa que mudou foi o nome do departamento (isso fica claro observando o site e foi evidente nas falas do Enong - como se houvesse ocorrido apenas uma junção, faltando ainda uma integração de fato). Mas dou a eles meu voto de confiança.

O que mais sabemos sobre preconceito?
Transcrevo as palavras de Carlos Varaldo, do Grupo Otimismo, no artigo As campanhas informativas das hepatites devem ser monotemáticas ou em conjunto com outras doenças?

  • A divulgação de estudos informando que a hepatite B é muito alta entre os imigrantes resulta em situações de alta discriminação nesses grupos. Em países da Europa e até nos Estados Unidos os imigrantes são acusados de "importar" a hepatite B, existindo projetos de lei absurdos, como o de não outorgar residência aos infectados.
  • Alguns países árabes expulsam estrangeiros infectados com AIDS ou hepatites e semana passada [notícia de 14/12/2009] o governo do Catar aprovou uma lei que obriga a realização de testes de AIDS e hepatites antes do casamento e, caso um dos noivos seja positivo estará impedido de ter filhos.